Sexta-Feira, 10 Setembro 2010

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As Conseqüências da Poluição Visual nas Cidades

Excesso de informações visuais, impacto na paisagem urbana e dinamismo. Com características bem amplas e que envolvem sinais de trânsito até formas variadas de publicidade (outdoors, anúncios de lojas e fachadas de prédios)
Excesso de informações visuais, impacto na paisagem urbana e dinamismo. Com características bem amplas e que envolvem sinais de trânsito até formas variadas de publicidade (outdoors, anúncios de lojas e fachadas de prédios), a poluição visual pode se inserir em diversos contextos e alterar o perfil de muitos lugares. Com reflexos imediatos na imagem das cidades, esse tipo de poluição detém um caráter subjetivo, é mediada pela dificuldade de interpretar e absorver mensagens e interfere, em diferentes intensidades, na relação diária das pessoas, especialmente as quem vivem em grandes centros urbanos, como São Paulo.
O comprometimento da poluição visual muitas vezes não é medido com facilidade, mas as conseqüências para quem transita em grandes metrópoles são muito significativas. Desde a dificuldade de encontrar endereços e identificação de bairros ou estabelecimentos até a influência em acidentes de trânsito, a poluição visual exerce no cenário urbano uma limitação que pode alterar a percepção devido às transformações artificiais. "A poluição visual leva à perda de referencial e pode passar a sensação de insegurança", diz Heliana Comin Vargas, professora livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Anúncios e dinamismo
Segundo a arquiteta, que é especializada no tema, a poluição visual interfere na relação das pessoas com as cidades e adquire características interessantes que abrangem aspectos que não são todos propriamente de deterioração do meio em questão, mas revelam até reconhecimentos através da visualização excessiva. "A proliferação de anúncios, sensação de dinamismo, confusão de mercadorias, muitas vezes, não é para identificar a mensagem, e sim o lugar", diz ela. Contudo, o âmbito prejudicial prevalece em detrimento do impacto que isso pode causar no cenário urbano.
Placas e sinais de trânsito, propagandas em postes e faixas, iluminação sem critérios, balões pelos ares, neon, adesivos em meios de transporte de massa (ônibus e metrô, por exemplo), fachadas de edifícios, outdoors consecutivos entre outros tipos de publicidade conjugadas podem compor paisagens urbanas que, em excesso e sem critérios para veiculação, redundam em poluição visual e faz com que tenha reflexos na vida das pessoas que interagem com as cidades. "O ambiente visualmente poluído acaba por causar incômodo nas pessoas e faz com que percamos a capacidade de perceber coisas boas. O espaço público adquiriu outro sentido e muitas vezes falta o bom gosto no que vemos", diz a arquiteta.
Outro ponto marcante e frisado diante da poluição visual vem a ser a falta de leis que regulamentem e que estabelecem critérios para evitar o adensamento de imagens e os transtornos na percepção ambiental. "Na cidade de São Paulo a legislação para anúncios é muito permissiva e gera a poluição visual. Falta controle, conscientização e fiscalização", diz Heliana.
Trânsito
Um dos poucos trabalhos nacionais que ilustra o impacto da poluição visual foi desenvolvido pelo médico Marcelo Talasso Salim. A sinalização do trânsito de várias ruas de bairros da zona Sul de São Paulo e até da Rodovia Castelo Branco foram alvo de suas observações. Tanto a poluição natural como a artificial participaram de seu estudo, que partiu de experiências pessoais referentes à dificuldade de visualização dos motoristas que trafegam pelos locais analisados. "Observei perigos diante de semáforos, várias sinalizações erradas e sérios obstáculos à visão adequada", diz ele, que é especialista pela Associação Brasileira de Acidentes e Medicina do Tráfego (Abramet) e atuou também em vários serviços de atendimento médico de urgência.
Os efeitos que a poluição visual podem acarretar, de acordo com o médico, são difíceis de serem alegados inclusive judicialmente, mas se relacionam de alguma forma a colisões e a uma gama diversificada de acidentes de trânsito. "Nos casos analisados, a sinalização pode levar os motoristas a cometer erros. Essa poluição visual é um fator que induz à negligência, imprudência, imperícia e muito mais", diz ele.
Para o médico, no Brasil há falta de critérios e de respeito aos sinais de trânsito. "É uma questão cultural", diz ele. Porém, as conseqüências apontadas podem ser sérias, caso não haja uma atuação e regulamentação diante dos agravantes que a poluição visual, em tese, pode gerar, tais como batidas, atropelamentos decorrentes de sinalização equivocada ou com impossibilidade de leitura. "As autoridades precisam ter, acima de tudo, boa vontade, dar mais atenção a esse problema e atuar com mais responsabilidade perante a poluição visual", diz ele.
Danilo Tovo - Jornalista Dr. Visão