Sexta-Feira, 10 Setembro 2010

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Veja bem, meu velho

A ciência, cada vez mais, tenta burlar a natureza ao perseguir a imortalidade do ser humano ...
A ciência, cada vez mais, tenta burlar a natureza ao perseguir a imortalidade do ser humano. É o caso de nos perguntarmos se, ao conseguirmos dominar todas as patologias, deixaremos de morrer? A resposta é não. Passaremos mais tempo de nossas vidas velhos.
Envelhecer é um artefacto da civilização. Mas não estamos, em nenhum sentido, preparados para enfrentá-lo, sequer sabemos como lidar com suas conseqüências imediatas.
E há um franco aumento do envelhecimento da população mundial em virtude da elevação dos índices de sobrevida. As estatísticas apontam que até 2050 o número de idosos no planeta irá triplicar.
A partir dos trabalhos do gerontólogo americano Leonard Hayflick, na década de 80, ficou definido que as células possuem um código genético que determina o número de divisões mitóticas que vão sofrer ao longo da vida.
Quando param de reproduzir, tornam-se senescentes e susceptíveis às doenças. Este fato é especialmente verdadeiro quando pensamos naqueles grupos celulares não programados para a reprodução como é o caso do cérebro e da retina.
A Degeneração Macular Relacionada a Idade - DMRI é, sabidamente, a maior causa de baixa visão em pessoas com mais de 50 anos em todo o mundo e, em seus consultórios, os oftalmologistas a estão vivenciando, de modo crescente.
Os especialistas em doenças da retina estão alarmados com o crescimento quase epidêmico dos casos da forma úmida da doença, que provoca um sério impacto na qualidade de vida das pessoas acometidas, comprometendo a sua habilidade para viver independentemente e realizar suas mais simples atividades diárias. O resultado é o aparecimento paralelo do “stress” emocional e a depressão clínica, além de uma maior susceptibilidade aos acidentes.
Na DMRI ocorre uma destruição da visão central, portanto, perde-se a habilidade para se ver detalhes, algo nitidamente relacionado ao envelhecimento Se numa faixa etária entre 50 e 65 anos a sua prevalência gira em torno de 1,5%, temos taxas aproximadas de 30% entre os 80 e 85 anos.
Para uma pessoa com visão normal, a perda repentina do seu mais precioso sentido é extremamente danosa, especialmente em um mundo cada vez mais orientado visualmente.
No idoso, esse dano é multiplicado, pois faz-se acompanhar de uma diminuição da maioria das suas habilidades físicas. Até que ponto a psicanálise e a psiquiatria saberão lidar com perda tão concreta e transformadora, perda em que se manifestam frustrações, quebra da integridade física , do vínculo com a realidade?
Não se vêem mais rostos familiares. Não se é mais obscuro. O indivíduo volta-se para si mesmo em um momento de profunda reflexão de toda uma vida. Se não vemos o lado de fora, resta-nos o lado de dentro, como bem expressou José Saramago em seu Ensaio sobre a Cegueira.
A degeneração macular nos parece uma legítima representante deste processo que podemos visualizar através da observação simples do fundo de olho e que pode e deve ser utilizada para uma maior compreensão do mecanismo da vida.
Tudo tem um preço. Ao buscar a imortalidade o homem esbarrou no envelhecimento o que torna necessário refazermos a pergunta sobre o porque envelhecemos por outra mais pertinente: por quê vivemos tanto?
Dra. Dorothy Dantés, oftalmologista, chefe do Departamento de Retina do Hospital de Olhos de Minas Gerais, cl. Dr. Ricardo Guimarães.