12/12/2006
Cerca de 3% das crianças portuguesas têm estrabismo
"Há uma quantidade de doenças do foro oftalmológico que afectam as crianças que são comuns aos adultos, mas há outras, como o estrabismo, o glaucoma congénito ou a retinopatia da prematuridade, que têm uma incidência especial na infância", explica o Dr. José Carlos Mesquita, oftalmologista e chefe do Serviço de Oftalmologia do Hospital de Dona Estefânia, que salienta ser uma patologia que "afecta mais ou menos 3% das crianças".
O estrabismo é um defeito no alinhamento dos olhos, que deixam de ver simultaneamente. Enquanto um olho fixa em frente, o outro desvia-se para dentro ou para fora, para cima ou para baixo.
"Quando um olho desalinha, provoca uma alteração motora que impede o desenvolvimento normal da visão, originando sequelas sensoriais graves, como as ambliopias (baixa de visão do olho desviado) e supressão (perda de visão simultânea)», diz este oftalmologista.
O estrabismo costuma iniciar-se na infância, mas também pode aparecer nos adultos.
"A criança estrábica tem um desenvolvimento e uma vida perfeitamente normais, apesar de não ter a visão binocular. O problema é que há trabalhos que necessitam de uma visão de conjunto e de relevo que não é possível realizar em visão monocular", sustenta o especialista.
A criança, ao contrário do adulto, está a desenvolver a sua visão e, quando um olho começa a desviar, há mecanismos cerebrais que impedem o aparecimento de diplopia (visão dupla). Assim, a criança não vê duas imagens do mesmo objecto, porque a imagem do olho desviado é suprimida. Se o estrabismo aparece no adulto, "a diplopia é a uma regra".
O estrabismo não tem como única consequência o desalinhamento dos olhos, e, regra geral, leva à diminuição da acuidade visual do olho que não foca os objectos. Isto ocorre porque a criança utiliza o olho que vê bem e o outro não desenvolve uma visão normal. A esta baixa de visão chama-se ambliopia funcional, que também pode existir sem estrabismo, em casos de defeitos de refracção não corrigidos. Mas "o estrabismo é a principal causa da ambliopia", revela José Carlos Mesquita.
Na perspectiva deste oftalmologista, "a primeira coisa que se deve fazer é a observação dos dois olhos para perceber em que estado estão. Após a avaliação completa, e identificado o tipo de estrabismo, segue-se um plano de recuperação".
Este plano de tratamento começa por corrigir a refracção (prescrever óculos) e tratar a ambliopia. Depois, "temos de obrigar o olho que vê mal a funcionar melhor, tapando o olho saudável" é, segundo este especialista, "o método mais eficaz no tratamento das ambliopias".
A oclusão serve apenas para recuperar a visão e não o alinhamento dos olhos. "Uma vez recuperada a visão, o olho fica ainda desalinhado e, se nós abandonarmos esta criança, passado pouco tempo fica a ver mal outra vez", sustenta José Carlos Mesquita, que acrescenta: "Em alguns casos, o alinhamento restabelece-se com a recuperação da visão, mas, nos casos em que isto não acontece, faz-se uma intervenção cirúrgica, actuando-se ao nível dos músculos extra-oculares que fazem movimentar os olhos, enfraquecendo-os ou reforçando-os, conforme os casos.
" Nem sempre é necessária a intervenção cirúrgica, pois há casos em que basta a aplicação de uma injecção de toxina botulínica directamente nos músculos, sob anestesia geral, para alterar a relação de forças entre eles e restabelecer o paralelismo dos olhos.
Seguindo-se o tratamento, normalmente, a partir dos 7 ou 8 anos a visão está estabelecida, mas há casos em que aos 3/4 anos o problema já está resolvido.
"Depois, a criança fica a ser observada uma ou duas vezes por ano, durante a sua escolaridade, para corrigir eventuais defeitos que podem surgir com o crescimento", afirma este especialista em Oftalmologia Pediátrica.
Agencias - Portaloptico.com
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