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18/08/2005

Ações em favor da boa visão

Cerca de 40% das pessoas sem visão estão cegas por doenças reversíveis, como a catarata. Para combater esse quadro e pensar políticas públicas para a saúde ocular, cinco centros de atendimento hospitalar instalados em São Paulo, Campinas, Curitiba, Goiânia e Recife foram indicados para conduzir atividades de pesquisa dentro do Projeto Visão 2020, uma proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da International Agency Prevention of Blindness (IAPB), que incentiva o combate à cegueira. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP é uma das escolhidas. Através da disciplina de Oftalmologia do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, ela coordenará o projeto em Ribeirão Preto. O número 2020 se refere ao ano estabelecido pelos médicos para tentar erradicar a maior parte das doenças que causam cegueira e, ao mesmo tempo, trata-se de um jogo de palavras relacionado a um teste de visão internacional, segundo o qual uma boa visão é aquela que atinge 2020 na escala de acuidade. De acordo com o professor e médico Eduardo Melani Rocha, coordenador de residência da Oftalmologia do Hospital das Clínicas (HC) da FMRP, o projeto pretende diminuir os índices brasileiros de cegueira. "Vale ressaltar que não é uma campanha de prevenção apenas, mas um projeto que vai propor estratégias para reduzir a incidência de cegueira nos próximos anos", diz Rocha. "Vamos treinar agentes de saúde para que reproduzam os métodos de prevenção onde forem trabalhar, avaliando os processos executados na comunidade." Ainda em fase de montagem, os grupos convidados se reunirão em Brasília, em data ainda não determinada, para um encontro internacional. Nele, serão traçadas as metas para o ano de 2006, quando pretende-se implementar as estratégias de ação. Rocha vai coordenar o projeto no que se refere ao planejamento das atividades da campanha, à avaliação dos resultados, aos procedimentos adotados e ao treinamento de pessoal. A coordenação-geral fica por conta da professora Maria de Lourdes Veronese Rodrigues. A equipe é composta de 24 residentes e 40 profissionais. O projeto também está aberto à participação de alunos de graduação. Realidade A FMRP já realiza vários projetos de atendimento a comunidades carentes, para avaliação de pessoas com problemas visuais. Só que essas campanhas nunca passavam por avaliações que mostrassem o quanto são efetivas e qual seu custo-benefício. "Com o Projeto Visão 2020 pretendemos traçar uma meta de pesquisa que levantará dados para uma proposta de política pública para o Estado, o Município e até o País", explica Rocha. O professor, que participa de campanhas de prevenção há pelo menos 15 anos, afirma que são preciso entender os resultados dessas ações depois de aplicadas na comunidade. Outra preocupação dele é formar pessoal de saúde para lidar com a nova realidade. Segundo Rocha, essa nova realidade se volta para uma população que está vivendo mais tempo, fazendo com que o número de pessoas idosas aumente. "Os dados mostram que indivíduos acima de 60 anos representam hoje 15% da população brasileira. Os números dobraram nos últimos 20 anos." O problema, para o médico, é que cada vez mais os recursos para tratamento dos idosos são restritos, pois os custos da medicina aumentam. "Com o aumento da sobrevida, aumentam os custos relacionados à manutenção da saúde do idoso", explica. Sabe-se que as principais causas de cegueira no mundo são a catarata, a falta de óculos, o glaucoma e o diabetes. E a prevenção pode ser feita com cirurgia, prescrição de óculos, tratamento e controle efetivo da doença. Mas, diz Rocha, o problema da cegueira no Brasil não é só devido ao crescimento da população idosa. Há também um problema cultural, que esbarra na dificuldade de locomoção e de acesso, no custo do tratamento, no medo e na insegurança do paciente. "Acreditamos que, ao se estabelecer uma rotina de atenção ao problema da cegueira, traçando uma estratégia no atendimento aos problemas e identificando-os como críticos, é possível criar uma política pública que perpetue a manutenção da qualidade da saúde ocular dos indivíduos", ressalta Rocha. Em Bauru, braile fica fácil Tempo claro e tarde quente no último 4 de agosto. Doze crianças e adolescentes sentados em roda. Muita música e conversa. Esperteza e curiosidade. "A gente vai aprender a cantar em primeira e segunda voz?", pergunta, com euforia, a estudante Débora, 11 anos. "Você já sabe isso?!", espanta-se a regente voluntária Regina Damiati. É a primeira vez que ela - integrante do grupo Mulheres da Unimed - inicia um trabalho com uma turminha como essa: deficientes visuais acolhidos pelo Centro de Atendimento de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão (Cedalvi), uma unidade do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP, o popular Centrinho, em Bauru. "Com certeza, também vou aprender muito", diz a regente. "A afinação da voz está na audição. E este é um sentido que esse grupo parece ter desenvolvido muito bem." A pedagoga Suzana Rabello - pioneira nesse setor do Cedalvi, que atende pessoas cegas, com visão subnormal ou baixa visão - assina embaixo. "Quem não vê ou vê pouco pode reforçar outras habilidades, como a audição e o tato." Fruto de uma especialização em reabilitação concluída em 1990, no Centrinho, o atendimento a deficientes visuais começou em 1991 e não parou mais. De lá para cá, cerca de 900 pessoas de Bauru e região já se inscreveram para participar das múltiplas atividades oferecidas, do ensino de braile (linguagem pelo tato) à estimulação sensorial, além de orientação sobre mobilidade, dimensão espacial, apoio pedagógico à escola regular etc. A dona de casa Inês da Silva Rosa Alves tem duplo motivo para comemorar a existência do serviço: Patrícia, de 11 anos, e Ana Paula, de 9 anos. Irmãs, ambas lutam contra as barreiras impostas pela deficiência visual, cada uma a seu estilo. "Patrícia é muito tímida e Ana, comunicativa", relata Inês. "Graças ao Cedalvi, as dificuldades cotidianas com as meninas foram amenizadas", comenta. Que o diga Cristiane Rocha Momesso: "O desenvolvimento tátil e o senso de localização melhoraram muito depois que minha filha passou a vir aqui". A filha, Amanda, de 10 anos, cega de nascença, se encontra com Suzana Rabello a cada 15 dias. Difícil é acreditar que a garota que agora esbanja saúde tenha nascido de seis meses e meio e com o pulmão ainda em formação, além do comprometimento visual. "As chances de vida eram poucas, mas superamos", festeja a mãe Outra que chama a atenção pela graça e extroversão é Lorena, de 6 anos, que enxerga quase nada. "Braile é fácil", desdenha, sorrindo. "Difícil foi aprender a andar de bicicleta. Agora, saio até sem rodinha de proteção e ergo o banco para dar mais emoção." "E eu que não sabia desenhar, não sabia fazer conta, não sabia diferenciar formas geométricas?", participa Bianca, de 17 anos, matriculada desde 23 de outubro de 1995, uma das primeiras a freqüentar o setor. No outro extremo está Caio, de 5 anos, que, segundo exames, tem baixa visão. "Trabalhamos forte com ele a linguagem por meio do tato, a identificação de objetos por cores fortes, a iniciação à matemática." A mãe, Luzandira Pereira de Lira Silva, informa, orgulhosa: "Desde um ano e meio, ele já sabia o que era direita e esquerda". Detalhe: Caio adora uma escada. "É uma criança agitada e feliz", descreve Luzandira. No final, todos juntos ensaiam a primeira canção do futuro coral de deficientes visuais: "Adulto é esquisito e muito complicado/ Vive reclamando e nunca é culpado/ Acha que criança não sabe de nada/ Não sabe que a gente quer é ser amada./ E a tarde termina como começou: ensolarada"
Jornal da USP

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