x Logo Dr. Visao

Dr. Visão

Guia To Go

09 h 27

Terça-feira, 25 Abril 2017

GUIA DE NOTÍCIAS

NOTÍCIA


20/04/2004

O fim da vista cansada?

É a derradeira fronteira, e não há como deixar de cruzá-la: o braço esticado ao máximo no restaurante na tentativa de colocar o cardápio em foco, os pedidos de ajuda para preencher o cheque, o tira-põe dos detestáveis óculos "de vovô" e o constante dilema - pendurá-los no pescoço, alardeando o avanço da idade, ou perdê-los à taxa de alguns pares por mês. A presbiopia, a popular "vista cansada", atinge perto de 100% da população entre os 40 e os 50 anos e é uma conseqüência natural do envelhecimento: com o tempo, a lente do olho se torna mais rígida e já não se expande ou contrai conforme a necessidade. Aí, tudo o que está perto vira um borrão indecifrável. Como passamos todos os momentos do dia alternando a visão entre objetos próximos e distantes, a condição logo se torna um tormento, pelo incômodo e pelos arranhões na vaidade. "Tenho pacientes que chegam a entrar em depressão, e fariam qualquer negócio para se livrar da vista cansada", diz o oftalmologista Marcelo Cunha, de São Paulo. Como esse é um cordão que só faz engrossar (o dos que têm presbiopia e, por conseguinte, o dos revoltados com ela), "curar" a vista cansada é hoje a grande meta da indústria que trabalha para a oftalmologia. E é também um de seus maiores desafios. Mais de uma década depois de o laser ter se mostrado uma opção confiável para corrigir a miopia e a hipermetropia, ainda não há remédio definitivo para o mais trivial dos males oculares. Algo próximo disso, contudo, acaba de surgir: a ceratoplastia condutiva. Trata-se de uma operação rápida, feita em ambulatório, que um mês atrás foi aprovada pelo governo americano. O que ela promete é o sonho de quem já passou dos 40: a alforria dos óculos de leitura. A cirurgia é simples, e havia quase três anos já vinha sendo aplicada a pacientes com hipermetropia - que enxergam bem de longe e mal de perto. Depois de pingar uma gota de anestésico no olho a ser operado, o cirurgião faz movimentos circulares no tecido interno da córnea com uma sonda de radiofreqüência. As ondas de rádio fazem com que a área atingida se aqueça, encurtando as fibras de colágeno daquela região. É como se uma cinta fosse passada por ali e apertada, criando um "calombo" - e fazendo, portanto, com que as imagens voltem a se formar na parte correta da retina.A empresa que desenvolveu a ceratoplastia condutiva (ou CK, abreviação do nome em inglês, conductive keratoplasty), a californiana Refractec, está de olho num mercado de pelo menos 50 milhões de americanos, e faz alarde da segurança do procedimento. De fato, por não cortar nem remover tecido - como as operações feitas com laser -, a CK é minimamente invasiva. Mas, como toda novidade, divide os especialistas. Primeiro, porque não serve para pacientes que, além de ter presbiopia, sejam míopes (a não ser que seu grau seja muito baixo ou que eles tenham corrigido o problema com cirurgia). A miopia, convém lembrar, atinge cerca de 30% da população em geral - e ainda mais entre as pessoas de origem asiática. Depois, porque vários oftalmologistas, como Walton Nosé, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Refrativa, consideram que seus efeitos tendem a regredir com muito mais rapidez e freqüência que os do laser. Ou seja, a CK seria uma solução temporária, e teria de ser repetida a intervalos regulares. "É uma espécie de Botox", compara Marcelo Cunha, para quem o ideal, antes de pensar em cirurgia, é oferecer ao paciente outras opções de convívio com a presbiopia, como lentes de contato bifocais ou aquilo que os especialistas chamam de monovisão, que consiste em induzir um pequeno grau de miopia em um dos olhos - o que pode ser feito por meio de lente de contato -, para facilitar o foco em objetos próximos.Os defensores da ceratoplastia argumentam que houve avanços na técnica, e que ela pode mesmo ser a saída para a vista cansada. "Os efeitos da cirurgia costumavam regredir quando a radiofreqüência ainda era aplicada à superfície da córnea. Desde que ela foi aperfeiçoada e passou a incidir no tecido interno da córnea, seus índices de estabilidade são tão bons quanto os do laser", diz Raul Damásio, do Hospital de Olhos de Minas Gerais, que já realizou cerca de 200 correções de hipermetropia com a técnica e se prepara para, em breve, estendê-la também a pacientes de presbiopia - a um custo ainda não determinado, mas que não deve ficar muito abaixo dos 2.000 reais por olho. Esse deve ser o maior obstáculo no caminho de quem deseja remoçar a visão. No Brasil, o SUS, ou Sistema Único de Saúde, não cobre a correção de miopia ou hipermetropia por laser, e os convênios só costumam custeá-la para quem tem uma deficiência visual acima de 7 graus. Senão, o dinheiro sai do bolso do paciente. Ainda assim, a demanda é imensa. Embora não haja dados oficiais, alguns médicos colocam em 100.000, por baixo, o número de cirurgias de miopia e hipermetropia feitas por laser a cada ano no país. Como o equipamento empregado na ceratoplastia condutiva é bem mais barato que o laser, e sua promessa é tão atraente, pode-se supor que sua popularização venha a ser veloz. O fim da vista cansada, quem sabe, pode em breve deixar de ser uma miragem.
Revista Veja

  • Seu nome

    Seu Comentário

    Seja o primeiro a comentar esta notícia, CLIQUE EM COMENTAR

Este Portal é um veículo de conteúdo, informação e divulgação sobre assuntos relacionados a oftalmologia (IMPRENSA), todo conteúdo veiculado é de responsabilidade de seus autores. NUNCA deixe de consultar o seu médico oftalmologista.
TEMAS
Portal DR. VISÃO - Todos os direitos reservados - ® 2000 - 2011