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07/11/2014

Intervenção precoce nas crianças com baixa visão ajuda a tirar o máximo partido do seu resíduo visual



A baixa visão, definida como uma perda parcial de visão que não é passível de ser corrigida, nomeadamente com óculos ou por cirurgia, pode manifestar-se desde o nascimento e só uma intervenção precoce durante a infância pode permitir o máximo estímulo da visão e diminuir as dificuldades cognitivas que geralmente estão associadas a este problema, alerta a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO). É fundamental a realização nos dois primeiros meses de vida de um exame oftalmológico em crianças de alto risco, nomeadamente as que apresentem potencial para sofrer de retinopatia da prematuridade, as que tenham história familiar e/ou suspeita clínica de retinoblastoma, de cataratas infantis, de glaucoma congênito e de doenças metabólicas e genéticas.


Paulo Vale, Coordenador do Grupo de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo da SPO, explica que a visão é central no desenvolvimento e na aprendizagem, sobretudo na aprendizagem espontânea, conferindo uma imagem integrada do mundo. Refere também que a incapacidade de adquirir novas informações visuais, causada pela baixa visão, conduz a uma falta de estímulos, levando o sistema visual a permanecer subdesenvolvido. “O desenvolvimento do sistema visual destas crianças não se produz da mesma forma espontânea e intuitiva que acontece numa criança sem problemas oftalmológicos. Estando esse sentido enfraquecido, muitos dos conceitos e aprendizagens que são adquiridos espontaneamente através da visão, ir-se-ão desenvolver de um modo fragmentado, baseados em informações parcelares, provenientes dos restantes sentidos e em descrições verbais subjectivas, o que compromete o desenvolvimento conceptual e linguístico”, defende o especialista.

 

Por isso é tão importante ensinar estas crianças a ver.

 

As dificuldades cognitivas surgem “se não houver uma intervenção precoce no sentido de estimular ao máximo a função visual da criança. É importante utilizar estratégias para que as crianças aprendam também através dos outros sentidos, nomeadamente através da audição e do tacto, para que haja uma complementaridade dos canais receptores de informação. No entanto, em muitos casos, como em anomalias congênitas estruturais, por vezes associadas com outras doenças sistêmicas, doenças genéticas ou metabólicas, paralisia cerebral, etc, o défice visual associa-se a outros défices, nomeadamente motores e intelectuais, o que dificulta ainda mais a reabilitação destas crianças”, refere Paulo Vale.

 

De acordo com o especialista, a falta de contacto visual e interação com o rosto da mãe, o nistagmo (trémulo dos olhos), a dificuldade em reconhecer um rosto familiar podem lançar o alerta quando a criança tem ainda meses de vida. A dificuldade em ver e reconhecer objetos que são perigos potenciais, as dificuldades na leitura, a fotossensibilidade ou maior dificuldade de visão em ambientes não familiares com pouca luz, ou em ambientes repletos de estímulos visuais, podem constituir também sintomas de baixa visão.

 

O médico oftalmologista aconselha os pais de crianças com este problema, a proporcionar um ambiente visualmente estimulante ao bebé, colocando à sua volta estímulos visuais (cores vivas e contrastantes, luzes e objetos brilhantes e acrescentando sempre que possível estímulos sonoros). É importante que os pais complementem a apresentação dos diversos objetos com a sua descrição, quer a partir do sentido da visão, quer também do tacto. Só assim as crianças poderão associar o objecto à sua função. A partir dos 3 anos, as novas tecnologias são também uma boa ferramenta, pelo que “é importante encorajar a criança desde cedo a usar o computador, nomeadamente o teclado, bem como dispositivos elecrônicos.” Mas claro que a reabilitação visual, partindo de uma avaliação em cada caso concreto do resíduo visual existente, tem que ser levada a cabo por uma equipa multidisciplinar que engloba o oftalmologista pediátrico, o pediatra do desenvolvimento, técnicos com treino em ajuda de baixa visão, o professor de ensino especial, o terapeuta ocupacional, o psicólogo e claro, os pais da criança. A criança deve estar integrada num ensino escolar regular.

 

É importante salientar que dos mais de 163 mil deficientes visuais em Portugal, estima-se que apenas 15-20% sejam cegos. Estudos populacionais indicam baixa prevalência da cegueira infantil, de 0,2 a 0,3 por 1000 crianças em países desenvolvidos e de 1,0 a 1,5 por 1000 crianças em países em desenvolvimento. Já a prevalência de baixa visão é estimada como sendo três vezes maior, segundo o Banco de Dados Mundiais sobre a Cegueira da Organização Mundial de Saúde.



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