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10/04/2015

Implante ocular para mudar cor dos olhos pode causar cegueira definitiva

Prática se tornou popular no Panamá; pessoas do mundo todo visitam o país para fazer a polêmica cirurgia


O mundo já teve muitos exemplos das consequências ruins da vaidade excessiva. Quando ela sobe para os olhos, no entanto, essa busca incessante pela beleza pode cegar.

As consequências de interferir em um local tão delicado do corpo humano podem ser irreversíveis. É o que acontece com o implante ocular ou laser despigmentador para mudar a cor dos olhos.

Nunca autorizados pela Anvisa – mas disponível para qualquer pessoa no Panamá, por exemplo - esses procedimentos são “uma loucura extremamente perigosa”, como alerta o oftalmologista Rubens Belfort Junior, professor titular de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“São dois procedimentos totalmente sem base científica que, de repente, começaram a serem comercializados em alguns países. Há uma preocupação grande de que eles venham a se disseminar. Não há nenhum trabalho experimental sério que mostre que esses implantes são seguros”, diz o médico.

A técnica do implante foi desenvolvida no Panamá. Em busca de olhos verdes, azuis ou mel, pessoas do mundo todo peregrinam até o país da América Central para implantar um silicone embaixo da íris e exibir uma cor diferente de olho.

Sem sentido

O procedimento consiste em inserir uma lente de silicone atrás da córnea e na frente da íris. “Imagine um relógio. O vidro é a córnea e o mostrador é a íris. O implante fica entre os dois”, detalha o oftalmologista do Instituto Penido Burnier, Leôncio Queiroz Neto.

Belfort Junior explica que o procedimento cirúrgico em si é simples. “É mais simples do que operar uma catarata. E é rápido. Mas muito perigoso. O implante é colocado na frente da íris e o olho não aceita isso. Ficar com a íris mexendo por detrás desse implante é perigoso”, detalha.

Para os profissionais que estudam meios de tratar e preservar a visão dos pacientes, uma cirurgia arriscada, sem comprovação científica e apenas por estética não faz sentido.

No caso do laser, Queiroz Neto explica que o procedimento foi desenvolvido nos Estados Unidos. “Consiste em retirar da íris a melanina, substância responsável pela cor escura dos olhos, para que a pessoa fique com olhos azuis, correspondentes à íris despigmentada”, explica ele.

O problema, segundo o médico, é que essa melanina se desloca para um canal interno do olho, podendo provocar o glaucoma de ângulo fechado, que se caracteriza pela dor súbita nos olhos, náuseas e dor de cabeça.

“Sinalizam uma emergência oftalmológica”, diz ele. Além disso, pode causar o glaucoma pigmentar, que é o aumento da pressão intraocular.

Lentes de contato

A oftalmologista do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, Renata Rezende, conta que atendeu a um paciente com problemas oculares depois de um implante para mudar a cor do olho. Segundo ela, o paciente havia viajado para o Panamá para fazer o procedimento.

“Um dos olhos dele ficou com um campo visual tubular, como se ele estivesse olhando através de uma fechadura de porta. Vai perdendo o campo da periferia para o centro, e como ele demorou para remover o transplante, teve glaucoma severo”, alerta.

“Isso é uma loucura!”, ressalta a especialista, que também é membro da Academia Americana de Oftalmologia, lembrando que a visão danificada pelo glaucoma nunca mais é revertida.

Quando há complicações, como glaucoma, opacidade da córnea e catarata, não há nenhuma garantia que o tratamento devolverá a visão como antes da cirurgia.

“Pode acontecer cegueira irreversível por causa do glaucoma, cegueira por causa de problemas na córnea, que teriam de ser corrigidos por transplante de córnea – e também catarata”, explica o professor da Escola Paulista de Medicina.

Para quem tem problemas em aceitar a cor do olho com que nasceu, a saída mais segura é usar lentes de contato coloridas. É necessário saber, porém, que o acompanhamento com oftalmologista é essencial. “Sempre existe risco, mas para a lente de contato é um risco pequeno e conhecido”, completa Belfort Junior.


Tribuna da Bahia

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