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26/05/2006

Dia Nacional de Combate à Cegueira pelo Glaucoma

Sem manifestar nenhum sintoma, a pressão dentro do olho começa a subir lentamente, levando à perda do campo visual. É o glaucoma, uma doença que acomete 67 milhões de pessoas pelo mundo e 900 mil brasileiros. Embora ainda não haja cura para esse mal, a medicina pode controlá-lo por meio de diagnóstico precoce e de colírios cada vez mais eficientes e com menores efeitos colaterais. O grande desafio dos especialistas quando o assunto é glaucoma é flagrar o problema o quanto antes e preservar a função visual dos pacientes, interferindo o mínimo possível em sua qualidade de vida. Não é tarefa fácil, pois essa é uma doença sem sintomas e, muitas vezes, não é percebida pelo paciente até que tenha ocorrido uma extensa perda do campo visual. É triste e frustrante para nós, oftalmologistas, receber um paciente com a doença em estágio avançado e saber que a situação poderia ter sido controlada se fosse descoberta mais cedo. Mais triste ainda é informar esse paciente que toda essa perda da visão é irreversível. Para os desavisados, o glaucoma é a principal causa de cegueira no mundo. Portanto, é preciso atenção. Ray Charles, músico recentemente falecido, já estudava piano aos seis anos de idade quando ficou cego em decorrência do glaucoma. Como no dia 26 de maio comemorou-se o Dia Nacional de Combate à Cegueira pelo Glaucoma, torna-se imprescindível alertar toda a população que, normalmente, o glaucoma não pode ser evitado. Porém, com sua detecção nos estágios iniciais e com o tratamento adequado, a cegueira em função do glaucoma pode, sim, ser prevenida. Para entender como surge o glaucoma, basta pensar no olho como uma pia, na qual a torneira e o ralo permanecem permanentemente abertos. O humor aquoso, um líquido produzido por uma pequena estrutura, chamada corpo ciliar (situada atrás da íris), fica constantemente circulando pelo cristalino, pela íris e pela córnea, nutrindo e limpando a região. Depois é escoado, através de um tecido, a malha trabecular, que serve como um ralo. Quando há falha na drenagem desse líquido, a pressão dentro do olho aumenta e comprime o nervo óptico. Esse nervo é o responsável por carregar a informação visual da retina até o cérebro. Comprimido, suas células nervosas vão morrendo lentamente, resultando em perda visual sem retorno. Idade, hereditariedade e raça são consideradas quando se fala em causas do glaucoma. Embora possa afetar qualquer pessoa, quem tem mais de 45 anos, tem algum glaucomatoso na família (principalmente parentes de primeiro grau), tem descendência negra ou asiática está sob maior risco. Há ainda, outros fatores que podem interferir como diabetes, miopia, uso prolongado de medicamentos como corticóides e anti-depressivos ou alguma lesão ocular prévia. É importante citar que, como a pressão intra-ocular ocular elevada é o principal fator de risco para o desenvolvimento do glaucoma, mesmo se um paciente não tiver nenhuma das características acima, mas começar a apresentar resultados elevados na pressão do olho nos exames de rotina, o momento será de atenção. Quando a doença é diagnosticada, as opções de tratamento vão desde o colírio, laser e até a cirurgia com ou sem o implante de válvulas. Contudo, a intervenção cirúrgica a laser ou convencional, que visa criar um novo caminho para “circular” o humor aquoso (aquele que se acumula no olho provocando o “sufoco”) é indicada apenas quando o tratamento clínico não controla bem a pressão do olho. Na maioria dos casos, os colírios agem de forma a manter essa pressão controlada. Ocasionalmente, também são necessários medicamentos via oral. Como os leitores podem perceber, o glaucomatoso tem que ter disciplina, mas não precisa mudar completamente seus hábitos ou ter sua vida totalmente modificada em função da doença. Basta atenção e, assim, estará afastando a ameaça da cegueira. Não que seja fácil, mas é perfeitamente possível. Lamentável é que, embora nos últimos anos o Brasil tenha avançado de forma espetacular na prevenção e no tratamento da saúde visual, as necessidades da população ainda estão sendo atendidas em ritmo muito aquém do que é adequado. Pesquisas apontam que 40% dos pacientes que tem o diagnóstico de glaucoma já chegam, em sua primeira consulta, apresentando cegueira em um dos olhos – o que caracteriza estágio avançado da doença. Reiteramos que os exames de rotina são essenciais para a saúde dos olhos, principalmente quando estamos falando de glaucoma. A consciência dessa necessidade, então, passa a ser vital para afastar a possibilidade de perder a visão. Sabemos, entretanto, que, se não houver um trabalho sério, integrando governo, profissionais médicos e entidades ligadas à área, o glaucoma continuará sendo uma das principais causas de cegueira evitáveis do Brasil, juntamente com a catarata. Que esse Dia Nacional de Combate à Cegueira pelo Glaucoma possa ser um alerta para as pessoas, para que multipliquem o alcance dessa mensagem a respeito da importância da prevenção através de exames periódicos. Maior intercâmbio de informações entre oftalmologistas e pacientes, somado à intensificação do tratamento de controle da doença, são fatores capazes de mudar uma realidade triste, de pessoas que perdem a visão devido a uma doença que pode ser controlada. “O olho é a janela do corpo humano pela qual ele abre os caminhos e se deleita com a beleza do mundo” (Leonardo da Vinci). Dr. Leôncio Queiroz Neto é médico oftalmologista, especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, diretor médico do Banco de Olhos de Campinas e titular do Instituto Penido Burnier de Campinas- SP, oftalmologista do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo.
Dr. Leôncio Queiroz Neto

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