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05 h 25

Quarta-feira, 13 Dezembro 2017

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REPORTAGEM


Olho no salto

A advogada Lilia Toledo Diniz, 25, nunca poderia imaginar que, além dos riscos óbvios, um salto de bungee jump pudesse provocar outros efeitos colaterais. Quatro anos depois de saltar de uma ponte de 40 metros de altura, Lilia descobriu que a aventura havia deixado em sua retina pequenos buracos que, se não tratados, podem evoluir para a cegueira.

No início de julho, a prática do esporte ganhou notoriedade com a morte de Letícia Santarém Amaro Rodrigues, 20, ocorrida no Triângulo Mineiro, quando uma peça do equipamento se rompeu e jogou a estudante violentamente ao solo. O problema de visão é menos trágico, mas bem mais comum.

"Descobri casualmente, durante um exame oftalmológico rotineiro. Foi um susto, principalmente porque eu não sentia nada", conta a advogada, que já passou por dois procedimentos a laser para correção dos buracos. Segundo os médicos, a ruptura da retina ocorre no fim da queda, quando o elástico chega ao limite, dá um tranco e puxa o saltador para cima.

"O forte impacto faz com que o humor vítreo, aquela substância gelatinosa que preenche o globo ocular, tracione a retina, podendo causar rompimentos, hemorragias ou até o deslocamento", explica o oftalmologista Hisashi Suzuki, do Hospital das Clínicas. "Não é motivo para desespero, mas o alerta do risco é importante."

A retina é a camada mais interna do olho, sensível à luz. Funciona como um filme fotográfico, que capta as imagens e envia para o nervo óptico, que, por sua vez, as transmite para o cérebro. Nos estágios iniciais, o deslocamento provoca pequenas alterações na visão periférica, como o surgimento de sombras escuras. Conforme o quadro se agrava, a visão central vai ficando embaçada e a perda visual, piorando.

O caso de Lilia, que não sentiu sintomas, foi exceção. Segundo os médicos, a lesão na retina é normalmente percebida na hora, com visão turva ou até sangramento.

"Retinas predispostas estão mais sujeitas a apresentarem buracos ou descolamentos. São pessoas que têm histórico do problema na família, por exemplo. Os prematuros e os míopes também são um grupo de risco, já que sua retina é mais fina e sensível", explica a chefe do departamento de retina e vítreo da Unifesp, Nilva Simeren Bueno de Moraes. Eles correm um risco maior de ter problemas não só em saltos de bungee jump, mas em diversas atividades, segundo ela.

"As lesões podem surgir após uma bolada, um salto de pára-quedas ou um mergulho. Para evitar que aconteçam, é importante usar óculos de proteção específicos para cada esporte." E eles existem, tanto para saltar de bungee jump como para jogar tênis.

O diagnóstico de problemas na retina pode ser feito com aparelhos específicos que analisam a parte interna do olho, como o oftalmoscópio ou o ultra-som. Geralmente, são usados em exames de rotina de míopes, uma vez que os buracos podem decorrer de uma deficiência em conseqüência da miopia. "O globo ocular do míope é um pouco maior e, conseqüentemente, a retina, que tem de se estender para cobri-lo, fica mais fina. As rupturas podem acontecer até quando se coça o olho com força freqüentemente", diz a médica.

As correções pelas quais Lilia passou são o padrão para tratar rupturas. É a chamada fotocoagulação retiniana a laser, na qual se "fecha" o buraco colando as extremidades. No caso de descolamento o tratamento deve ser cirúrgico.

Revista da Folha

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