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Quinta-feira, 18 Julho 2019

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REPORTAGEM


A promoção da doença

Além de fazer publicidade de medicamentos, laboratórios promovem os transtornos para os quais são indicados

Transformar problemas e contingências comuns da vida, como o envelhecimento, a timidez, a menopausa, a tristeza ou a solidão, em doenças que podem ser tratadas com medicamentos é uma das argúcias utilizadas pela indústria farmacêutica para vender melhor seus produtos.

Mas não é a única. Além disso, algumas doenças leves se fazem passar por graves, as estatísticas de prevalência (número de casos) são infladas, transforma-se um fator de risco em doença...

E tudo isso muitas vezes de forma combinada, com o apoio de médicos líderes de opinião e a utilização dos meios de comunicação em campanhas dirigidas tanto a médicos quanto a consumidores.

Esse fenômeno, em pleno auge, foi batizado na literatura anglo-saxã de "disease mongering", que poderia ser traduzido como "promoção de doenças".

Essa tática "transforma em doentes os saudáveis, desperdiça recursos preciosos e causa sofrimento iatrogênico (causada pelos médicos e os remédios)", resumem o jornalista Ray Moynihan e o farmacologista David Henry, ambos da Universidade de Newcastle (Austrália), no último número da revista "PLoS Medicine", que inclui uma série de trabalhos sobre "disease mongering".

Os defensores dessa prática comercial argumentam que as companhias farmacêuticas se limitam a oferecer informação ao consumidor e que se depois o remédio é receitado ou não é um assunto que cabe ao médico e ao paciente.

Mas muitos médicos estão preocupados porque a saúde se assemelha cada vez mais a um bem de consumo.

Às vezes os pacientes parecem clientes informados que buscam satisfazer uma necessidade de saúde criada pela indústria farmacêutica, assim como a automobilística criou, por exemplo, a necessidade dos veículos todo-terreno.

"Dir-se-ia que, como os personagens de Pirandello que buscam um autor, alguns remédios estão em busca de aplicação, e a encontram em processos que têm mais a ver com o simples fato de viver do que com doenças verdadeiras", afirma o médico de família Pablo Alonso Coello, do Centro Cochrane Ibero-americano, em Barcelona.

"Existem campanhas dirigidas a consumidores e médicos que preconizam que a solução para esses problemas está na farmacopéia, e não nos próprios recursos da pessoa."

Um assunto crucial, como indica esse médico, é que as doenças começam a ser definidas pelas empresas: "A construção social e científica da doença está sendo substituída pela construção por parte das corporações".

O especialista em "disease mongering" Ray Moynihan, que participou da organização este mês de um primeiro congresso médico sobre o tema, sugere que é necessário começar a estudar mais a fundo o fenômeno e a desenvolver estratégias e metodologias que gerem dados sobre seu verdadeiro impacto.

Um dos exemplos mais conhecidos é a medicalização da sexualidade humana e seus problemas.

A história do sildenafilo (Viagra) é a da transformação com êxito de um medicamento em produto de consumo: um remédio eficaz e seguro para tratar a impotência, mas que também pode ser utilizado por uma população mais ampla.

Seu lançamento comercial foi precedido de uma intensa cobertura na mídia sobre a disfunção erétil, alertas sobre sua enorme prevalência, os problemas que causa aos afetados e as boas expectativas dos tratamentos.

A posterior "criação e promoção da disfunção sexual feminina é um caso típico de promoção de doenças por parte da indústria farmacêutica e outros agentes medicalizadores", afirma Leonore Tiefer, professora de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Nova York.

Na série de artigos publicados em "PLoS Medicine", alerta-se que a indústria farmacêutica está se infiltrando nas escolas (por exemplo, informando os professores sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade):

Coloniza a Internet com páginas que informam ao consumidor enquanto promovem certas doenças;

Cria e financia associações de pacientes para que se familiarizarem com seus tratamentos e os solicitem;

Utiliza os meios de comunicação para que as pessoas se sintam doentes (exemplo: a síndrome das pernas inquietas) e está transformando os pacientes em consumidores, assim desgastando o papel do médico como especialista.

A promoção de doenças é um fenômeno que ainda está em fase de maturação, segundo Moynihan, que participará do congresso anual da Sociedade Espanhola de Medicina Familiar e Comunitária, de 15 a 18 de novembro de 2006 em Valência.

E está convencido de que as coisas não mudarão de forma apreciável enquanto os responsáveis políticos não tomarem consciência do problema e compreenderem os possíveis benefícios de freá-lo.

“El Pais”, de Madri

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