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05 h 15

Quarta-feira, 13 Dezembro 2017

GUIA DE REPORTAGENS

REPORTAGEM


Impacto econômico no tratamento do glaucoma: volume de gotas de colírios antiglaucomatosos brasileiros e norte-americanos

Introdução

Em oftalmologia, a via tópica é a principal forma de administração de medicações e o volume da gota instilada está diretamente relacionado à biodisponibidade da droga, para proporcionar uma quantidade padrão e adequada para ação do fármaco.
Em condições normais, em olhos não anestesiados, o volume de lágrima é em torno de 7 µl, apresentando um turnover de 16% por minuto, que pode aumentar em 30% por minuto pelo estímulo causado pela instilação da gota. As apresentações comerciais mais antigas apresentam volumes que variam entre 50 e 75 µl e atualmente os frascos fornecem gotas variando entre 25 e 56 µl.
É importante produzir uma gota menor com maior concentração da droga pois a ação farmacológica depende da quantidade residual em contato com a superfície ocular, após perdas por diluição, ligação e drenagem. Já foi demonstrado, por exemplo, que 5 µl de nitrato de pilocarpina 1,92 x 10-2 M resultam em igual concentração de 25 µl de 1,0 x 10-2 M da mesma droga, e melhora sua biodisponibilidade pela menor drenagem e menor absorção sistêmica.
De acordo com Nagataki(, a melhor concentração em filme lacrimal é atingida com uma gota de 20 µl. É comum entre pacientes usuários de colírios de mesma posologia e contendo volume igual, a observação das diferentes durações de medicações.
No mercado brasileiro há colírios que possuem equivalentes em outros países, inclusive com mesmos nomes comerciais, porém apresentados em frascos diferentes. Como o tamanho da gota está diretamente relacionado à conformação interna do bico do frasco, objetivou-se determinar se existe diferença entre a gota obtida de colírios norte-americanos e seus similares nacionais, bem como dimensionar esta possível diferença na duração do tratamento com cada frasco e seu conseqüente impacto econômico no tratamento anual.

Métodos

Foram adquiridos em farmácias nos Estados Unidos e no Brasil 8 frascos dos seguintes colírios: Timoptolâ 0,5% (5ml Merck - Brasil); Timopticä 0,5% (5ml Merck - EUA); Alphaganâ 5ml (Allergan - Brasil); Alphaganä (5ml Allergan - EUA); Betoptic Sâ (5ml Alcon - Brasil); Betoptic Sä (5ml Alcon - EUA); Iopidine â (5ml Alcon - Brasil) e Iopidineä (5ml Alcon - EUA); nos EUA, em 4/99 na Medical Center Pharmacy, New Haven, EUA, e no Brasil, na Drogaria São Paulo / Pedro de Toledo na mesma época.
Comparou-se o peso de cada gota em balança de precisão eletrônica Marte modelo AL500 com sensibilidade de até 1mg e reprodutibilidade de até 1mg, em temperatura ambiente e tarada a cada medida, para cada frasco.
Para obtenção da gota o frasco de colírio foi invertido a 90°, e levemente pressionado a fim de proporcionar uma gota após aproximadamente 15 segundos. Todos os colírios foram abertos e testados pelo mesmo investigador e 10 gotas de cada frasco foram pesadas para estabelecer cada medida. A balança foi tarada a cada medida.
A determinação do volume da gota foi obtida após a pesagem de um ml (conseguido através do uso de uma pipeta) de cada medicação, pela relação volume-peso. Mediu-se nos frascos o volume das gotas, o número de gotas em cada frasco e a duração do tratamento baseado no número de gotas disponíveis (considerando o uso diário de uma gota aplicada em cada olho, duas vezes ao dia, no total de 4 gotas por dia).
Determinou-se também, para cada tipo de colírio, o custo mensal do tratamento para cada um dos frascos, baseado nos preços das medicações adquiridas.
As comparações das variáveis quantitativas analisadas foi procedida pelo teste não paramétrico para amostras independentes de Mann-Whitney, sendo considerada uma diferença estatisticamente significante um valor de probabilidade  menor que 5%.

Resultados

Comparando-se os volumes de gotas de antiglaucomatosos nacionais e americanos verificou-se que em todos eles o volume das gotas foi maior nos colírios brasileiros de forma estatisticamente significante (Tabela 1). Em média, a gota brasileira de Alphaganâ foi 18% (8,6-29,1%) maior que a do importado, a gota média de Betoptic Sâ foi 38,4% (30,5-44,4%) maior que a do importado, a gota média de Iopidineâ foi 46,3% (13,6-80,7%) maior que a do importado e a gota média de Timoptolâ foi 14,7% (9,8-19,0%) maior que a do importado.
O número médio de gotas por frasco obtido com os produtos brasileiros foi significativamente menor que o dos frascos norte-americanos, com média de 15,2% menor para o Alphaganâ, 27,7% menor para o Betoptic Sâ, 32,1% menor para o Iopidineâ, e 12,8% menor para o Timoptolâ.
A duração média dos frascos foi significantemente menor nos frascos brasileiros. Um frasco de Alphaganä foi em média 17,8% maior que o nacional, o Betoptic Sä 38,3% maior que o nacional, o Iopidineä 47,3% maior que o nacional e o Timoptic® norte-americano 14,7% maior que o Timoptol® nacional.

O estudo mostra o custo anual (calculado para 365 dias de uso diário de uma gota duas vezes ao dia em cada olho) dos colírios antiglaucomatosos, em reais, por paciente, com o colírio atual no mercado e o que custaria se o volume médio da gota brasileira fosse semelhante ao volume médio norte-americano. Encontrou-se anualmente um gasto médio maior de R$ 66,60 para o Alphagan, R$ 53,20 para o Betoptic S, R$ 116,60 para o Iopidine e R$ 7,40 para o Timoptol.

Discussão

No presente estudo observou-se diferença importante entre os volumes de gotas de colírios brasileiros e norte-americanos. Apesar de todas apresentações testadas forneceram gotas de volume aceitável (abaixo de 50 µl), e estão em conformidade com as normas vigentes no Ministério da Saúde. Entretanto as diferenças observadas indicam que o volume da gota fornecida pelo frasco deve ser valorizado quando da homologação dos medicamentos, para que sejam evitados desperdícios e elevação de custos.
A diferença na duração dos frascos nacionais e importados, bem como no custo salientam a repercussão sócio-econômica e as vantagens da padronização no tamanho da gota, particularmente útil em pacientes usuários crônicos de colírios como os glaucomatosos. Amaral e cols. já descreveram, com resultados similares aos nossos, médias de volumes de gotas dos colírios antiglaucomatosos brasileiros.
A análise laboratorial do trabalho foi desenvolvida de julho a novembro de 1999, anteriormente à informação à classe oftalmológica que o laboratório Alcon® (produtor dos colírios Betoptic S® e Iopidine®) modificou a formatação dos bicos dos colírios com a finalidade de propiciar gotas com volume menor. De acordo com a Alcon®, consultada antes da publicação deste trabalho, todos os frascos de colírios tiveram sua formatação modificada desde outubro de 1999, passando então a utilizar os mesmos frascos de colírios norte-americanos. Tal fato deve ser objeto de avaliações futuras. O laboratório Allergan, igualmente consultado, garante a nova padronização de bicos de colírios para o padrão "Boston Round", em utilização nos EUA, para os próximos meses, o mesmo foi informado pelo laboratório Merck Sharp Dohme.
Outros medicamentos oftalmológicos deveriam ser incluídos em estudos deste tipo, inclusive para produtos a serem usados em pacientes usuários de lentes de contato. A abrangência deste assunto vai além: outras especialidades que não a oftalmologia necessitam de avaliação de seus produtos em relação ao desperdício, onerando a população brasileira. O despreparo do governo em relação a este assunto é notado, e sugere-se nova avaliação para qualificação de medicamentos em relação ao registro e revalidação, combatendo-se a cultura do desperdício.
Pela análise dos resultados constatou-se que os colírios nacionais fornecem gotas de volume estatisticamente maior que os norte-americanos, acarretando menor duração do frasco e maior custo para os usuários brasileiros. Se os colírios brasileiros fornecessem gotas em volume igual ao dos norte-americanos, haveria economia de até 46,9% no tratamento dos pacientes, chegando quase ao equivalente a 77% de um salário mínimo atual por ano.

Agradecimentos
Ao Dr. Augusto Paranhos Jr. pela sua colaboração de New Haven, EUA.

Arquivos Brasileiros de Oftalmologia

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